Por Marina Rappa

A pandemia do novo coronavírus atingiu em cheio a economia mundial. Um dos principais pilares, a construção civil, até entrou na lista de atividades consideradas essenciais, mas isso não garantiu que o setor continuasse a todo vapor. Pelo contrário: 94,3% das empresas de construção disseram ter percebido reflexo negativo ou muito negativo sobre os negócios, segundo levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) em abril.

Os dois principais motivos apontados para o pessimismo foram a redução da demanda e paralisação parcial ou total por questões de saúde. O IMOB (Índice Imobiliário da bolsa) já apresenta queda de aproximadamente 44% no acumulado do ano, segundo relatório da Capital Research. O índice é composto por empresas como Eztec, Trisul, Gafisa, Cyrela, Even e MRV.

Mas como o setor pode se recuperar do tombo quando o período da quarentena acabar? O 6 Minutos conversou com a arquiteta Ana Belizário, gestora de projetos da Amata, para tentar entender o que vem pela frente. A aposta é de que o sistema convencional, utilizado em mais de 90% das construções brasileiras hoje, será substituído pela construção industrializada. A tendência já vinha se modificando, segundo a arquiteta, mas assim como em outros setores, a pandemia vai agilizar esse processo.

Como funciona a construção industrializada? Os sistemas construtivos industrializados são basicamente formados por materiais como a madeira, o aço e o concreto pré-moldado. O processo começa no projeto, que é pensado em detalhes para reduzir o máximo possível o tempo gasto no canteiro de obra. As peças são desenhadas e enviadas aos fornecedores dos materiais, que entregam para a construtora diversas peças prontas de diversos materiais. Tudo isso vai para o canteiro de obra para, finalmente, ser montado como um “Lego”.

“Acredito que essas alternativas sejam uma solução para o mercado se preparar para minimizar prazos. O ciclo de um projeto, da compra do terreno até a entrega do empreendimento, é mais longo na construção tradicional. Se eu projetei um empreendimento para entregar em 5 anos e parei por 1 ano e meio por causa da pandemia, modificando o sistema de construção eu consigo correr atrás desse tempo perdido”, explica Ana. Isso porque os sistemas industrializados reduzem em aproximadamente 50% o tempo de obra, segundo ela.

Esse processo, aliás, lembra algumas construções americanas, que misturam os materiais, utilizam muitas peças pré-moldadas e as casas acabam sendo entregues em períodos mais curtos de tempo. “Esses são os sistemas híbridos. Temos um hábito de depender 100% de concreto na obra, mas lá fora notamos essa tendência muito forte de mistura de sistemas. A pandemia ajudou a pensarmos de onde vêm os nossos recursos e o nosso material de construção. Se a gente não otimizar nossos recursos, estamos criando uma crise para nós mesmos”.

E como funciona a construção que é feita em massa hoje? No sistema convencional, após o projeto ser feito, tudo acontece no canteiro de obra. As alvenarias e partes de construção são montados em formas: o concreto é colocado dentro delas, cura e, no fim, a forma é jogada fora. “Esse processo é muito artesanal para o tanto que a tecnologia já se desenvolveu nesse ramo. Construir uma casa com blocos empilhados ou tijolos faz parte da tradição brasileira, mas fazer um edifício de 30 andares é muito defasado em relação ao desenvolvimento tecnológico”, explica a arquiteta.

Além disso, como o modelo convencional exige um tempo maior para a construção no canteiro, acaba-se precisando de um número maior de trabalhadores in loco. De acordo com Ana, enquanto a construção convencional precisa de 100 colaboradores no canteiro de obras, no sistema industrial são necessários apenas 5 trabalhadores. Na análise da arquiteta, em tempos em que devemos evitar as aglomerações, esse talvez seja um formato adequado para o momento.

E como um profissional da construção civil pode se preparar para esse novo cenário? A principal mudança e paradigma, segundo Ana, é entender que a produtividade tem tudo a ver com os sistemas mais industrializados. Quanto mais o trabalhador estiver por dentro dos novos processos, mais terá chances de permanecer neste mercado.

“O que eu diria para qualquer profissional relacionado à construção civil é para investir na informação e conhecimento disponível sobre projetos e planejamentos prévios. Quem acompanhar essa tendência vai ter uma posição bacana. Todo mundo tem que entender o desenho da planta, o planejamento do inicio e de todas as etapas da obra, saber seguir cronogramas e entender como casar melhor as atividades para cada processo. A metodologia de gerenciamento de projeto veio para ficar”, diz a arquiteta.

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