Por Marina Rappa

Você já se imaginou morando em um prédio em que a estrutura é inteira de madeira? Essa é a proposta do Edifício Floresta Urbana, da empresa Amata em parceria com o escritório de arquitetura Triptyque, que já constrói edifícios de madeira em outros países, principalmente na Europa. Com previsão de início da obra para este ano, o projeto terá coliving, lojas e restaurantes em 13 pavimentos, dispostos em 5.500 m² de área construída. Será o primeiro prédio deste tipo no país — e o local escolhido foi a Vila Madalena, em São Paulo.

Mas aí você deve se perguntar: se é tudo de madeira, não tem risco de molhar e cair? E se acontece um incêndio? Como a estrutura é montada? O 6 Minutos perguntou tudo isso para Carol Bueno, responsável pelo projeto e uma das sócias do escritório Triptyque, e vai te ajudar a tirar essas dúvidas.

Como ele é feito? A base é uma técnica chamada madeira engenheirada. Durante a fase de concepção do projeto, paredes, colunas e chapas são desenhadas no tamanho exato que devem ter. Esses desenhos vão para o local de confecção das peças e, em uma máquina de corte, a madeira de pinus é moldada de acordo com as medidas. Na obra, tudo é encaixado e colado para montar a estrutura. Esse processo acelera a construção do edifício.

O que é mais demorado é a concepção da obra-prima. De acordo com Ana Belizário, gestora de projetos da Amata, o ciclo de crescimento do pinus para uso em construção civil é de 18 anos. Depois de colhida a árvore, a produção da madeira engenheirada leva aproximadamente oito semanas. A previsão de término do edifício é 2022.

Como evitar o desgaste da madeira? Em diferentes etapas da produção, as peças passam por processos com produtos químicos para evitar que peguem fogo, tenham infestações de insetos ou pestes e sofram com insolação e chuva.

Aliás, no caso de incêndio, por norma, existe um duplo cuidado. De acordo com Carol Bueno, todas as vigas são projetadas com uma margem de queima. Funciona mais ou menos assim: para cada viga, são adicionados alguns centímetros em todos os lados para, no caso de um desastre, queimarem antes que o fogo atinja a parte que efetivamente segura a estrutura do prédio. Isso daria o tempo necessário para a evacuação do local.

E quanto custa construir um prédio desses? Por ser um material que ainda não foi totalmente desenvolvido e pesquisado para a construção civil, a madeira (de reflorestamento) é mais cara que o concreto. Mas, segundo a arquiteta, existe um cálculo de benefício: em uma obra de madeira, usa-se aproximadamente 1/5 do material de uma obra de concreto, economizando tempo e gasto com insumos. “O desperdício em obras comuns, como vemos por toda a cidade, é estrondoso. Do material levado para a construção, mais de 40% vai fora”, explica Carol.

E quais são os demais benefícios do prédio de madeira? O primeiro ponto levantado pela arquiteta é que esse tipo de construção entra na cadeia produtiva de absorção de dióxido de carbono, sendo mais sustentável do que o cimento. A indústria do cimento, aliás, é tida como uma das principais emissoras de gases poluentes. “A escolha da madeira vem de uma mudança mundial. Encontramos nela um material que responde às questões de sustentabilidade: ele é de origem vegetal e renovável”, explica.

Além disso, esse novo braço da construção pode criar novos empregos e novas especializações. “Em busca de construir de forma eficiente, temos a oportunidade de capacitar profissionais nesse ramo. A pessoa sai daquela produção de obra comum, com quebra e construção de paredes, e vai gerenciar a máquina de corte de madeira.”

Mas o morador do prédio tem algum benefício? Sim. A experiência sensorial de habitar um empreendimento de madeira pode ser mais “calmante”. O cheiro da madeira auxilia nesse aspecto. “Um grupo de pesquisadores japoneses fez um estudo dos benefícios intangíveis dos edifícios de madeira e conseguiram medir que crianças, por exemplo, conseguem se concentrar mais.”

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