Para construir as cidades do futuro é preciso usar um material de eficácia comprovada e capaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a produção de entulho, o desperdício nos canteiros de obra, a poluição decorrente da construção civil. A única unanimidade entre engenheiros, construtoras, incorporadoras e especialistas em sustentabilidade por atender a todos esses requisitos é uma velha conhecida nossa: a madeira. Na última década, a adoção de novas tecnologias vêm potencializando ainda mais suas possibilidades de uso a partir do desenvolvimento da madeira engenheirada e do aperfeiçoamento dos processos produtivos, cada vez mais semelhantes a linhas de montagem industriais, rápidas e versáteis.

A evolução permitiu um aumento significativo da altura das edificações em madeira, com pesquisas constantes sobre elementos de ligação que elevam cada vez mais esses limites. O Wood Products Council, órgão que acompanha o uso global do sistema, informa que desde 2014 foram erguidos mais de 44 edifícios altos, ou seja, acima de seis andares. Há diversos exemplos mundo afora, especialmente no Hemisfério Norte, com destaque para Canadá, Estados Unidos e Europa, com Noruega, Finlândia e Suécia adotando o método com maior frequência.

O posto de edifício em madeira mais alto do mundo é uma disputa acirrada com vencedores que mudam quase no mesmo ritmo das estações do ano. Em 2015, o título pertencia ao Treet em Bergen, na Noruega, de 49 metros. Então veio o Brock Commons Tallwood House, moradia estudantil da University of British Columbia (UBC), em Vancouver, com 53 metros e espantosos 70 dias de montagem até estar pronto para abrigar 404 alunos em apartamentos studio. Meses depois, a HoHo Tower, em Viena, anunciou que chegaria a 84 metros e 24 andares. Logo ficou para trás, pois a Noruega voltou ao páreo com seu Mjøstårnet, que ficou pronto em março do ano passado com 85,4 metros e 18 andares, o terceiro mais alto do país.

Superar essas marcas é o objetivo de projetos em planejamento como o Proto-Model X (PMX), do Sidewalk Labs, subsidiária do Google, previsto para Toronto, no Canadá. Chicago também tenta assumir a dianteira com o River Beech de 80 andares, parceria entre a Universidade de Cambridge, o escritório de arquitetura Perkins + Will e a empresa de engenharia Thornton Tomasetti. De modo geral, os Estados Unidos investem mais em área construída do que em altura. O prédio de escritórios T3, em Minneapolis, se auto declara o maior do País com 17 mil metros quadrados em madeira distribuídos em sete andares.

Os americanos alteraram seu Código Internacional de Construção (IBC) no início de 2019, permitindo edifícios de madeira de até 80 metros. Da mesma forma, o Canadá alterou seu código de obras para incentivar projetos em madeira cada vez mais altos. O governo canadense oferece ainda o programa Construção Verde em Madeira (GCWood) com linhas de financiamento em pesquisa e desenvolvimento bem como maior agilidade na aprovação e construção de arranha-céus.

Ao contrário do que o senso comum poderia supor, uma das razões que impulsionam a produção global de edifícios em madeira é sua resistência ao fogo. O material tem um comportamento mais previsível em situações de incêndio do que o concreto ou mesmo o aço. Há até mesmo construtoras que utilizam madeira para proteger estruturas de aço em edifícios tradicionais. Destaca-se ainda sua resiliência frente a terremotos. Edifícios de madeira podem ser consertados depois de enfrentarem fortes abalos, enquanto os de concreto simplesmente racham e precisam ser demolidos.

A leveza se traduz em desempenho e eficiência. Enquanto um metro cúbico de concreto pesa cerca de 2,7 toneladas, um metro cúbico de madeira engenheirada pesa cerca de 400 kg. Esse atributo pode ser aproveitado de muitas formas, oferecendo grande versatilidade em terrenos difíceis, como em antigas instalações industriais e comerciais abandonadas e locais marcados pela contaminação ambiental. Sua estética a torna ainda mais atraente, favorecendo uma conexão com a natureza e uma sensação de acolhimento mesmo nos mais inóspitos ambientes urbanos.

Dados indicam que o setor construtivo nunca poluiu tanto quanto agora. De acordo com o 2019 Global Status Report for Buildings and Construction, o mais recente relatório publicado pela ONU Environment para a área de edificações, a construção civil foi responsável por mais de um terço (39%) das emissões anuais de carbono associadas ao consumo e à produção de energia, o índice mais alto já alcançado desde que as análises foram iniciadas. Desse montante, quase metade (17%) diz respeito exclusivamente às emissões do setor residencial.

Conforme os prédios buscam usar fontes de energia renovável em suas operações, fica evidente a necessidade de tornar sua produção mais sustentável. A madeira traz a vantagem adicional de retirar o carbono da atmosfera, armazenando-o ao longo de toda a sua vida útil. Um metro cúbico de madeira pode extrair do ar mais de uma tonelada de dióxido de carbono.

Reduzir custos e prazos são outra questão fundamental para uma indústria que pouco evoluiu em suas práticas nos últimos cem anos. Enquanto tantos setores viveram verdadeiras revoluções, a construção civil mantém métodos custosos com alto índice de desperdício que soluções pré-fabricadas são capazes de eliminar. A escalabilidade é uma demanda urgente das cidades contemporâneas, onde o déficit habitacional e necessidade de espaços de uso múltiplo pressionam por respostas rápidas com boa relação custo benefício.

Por fim, é preciso ter em mente a principal razão para o uso da madeira engenheirada na construção das nossas cidades: não temos outra escolha. As cidades do amanhã estão sendo gestadas hoje, e o compromisso com um futuro mais promissor precisa ser posto em prática desde agora.

voltar [<]