Em entrevista à Amata, Frederico Carstens, sócio-diretor da Realiza Arquitetura e fundador da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura do Paraná (AsBEA-PR), fala sobre o verdadeiro conceito de sustentabilidade dos empreendimentos e o papel dos materiais neste processo. Veja a seguir:

O termo sustentabilidade ao longo dos anos tem sido mal-empregado (banalizado). O que de fato existe de real no mercado imobiliário dentro desse conceito?

Em relação à sustentabilidade ainda temos o famoso green wash, ou banho verde. Infelizmente ele tem permeado a maior parte dos empreendimentos, banalizando muito o termo – usado como ferramenta para alavancar as vendas. Por conta disso, recorremos a certificações como LEED®, AQUA-HQE, BREEAM®, entre outras, a fim de garantir que determinado edifício siga conceitos que o torne de fato sustentável. Por isso a concepção do projeto arquitetônico envolve muitas reflexões e será determinante para se chegar a um edifício com baixo impacto ambiental e economicamente viável.

Que boas práticas devem ser adotadas, já que a sustentabilidade tem início na fase de concepção de projeto?

Aqui na Realiza, em nossos estudos, a gente sempre diz que a sustentabilidade de verdade começa com um bom plano urbano da cidade. Deve-se partir do macro para se chegar à unidade residencial, corporativa ou comercial. É imprescindível avaliar a localização do terreno, o entorno, assim como a mobilidade das pessoas, e a forma como uma edificação será erguida. Os materiais e os sistemas construtivos são igualmente importantes, porque a gente não pode falar em sustentabilidade de uma construção sem o uso de materiais adequados. É um caminho sem volta.

Que materiais e sistemas seriam estes?
Sistemas pré-fabricados de um modo geral, pois teoricamente eliminam os desperdícios e facilitam o trabalho dos colaboradores in loco. Os provenientes de fontes renováveis e recicláveis são os principais, a exemplo da madeira engenheirada. Ao mesmo tempo em que a matéria-prima é retirada de floresta de manejo, passa pela indústria, pela modelagem e pelo tratamento das peças, que chegam prontas para uso no canteiro de obras. Os materiais vivos, graças à evolução tecnológica, também são uma tendência. Um exemplo é a tinta viva, criada com biotecnologia, que realiza fotossíntese e gera energia. Faz parte de uma nova geração de produtos naturais sintetizados com inteligência, capazes de reagir ao meio ambiente e se adequar ao uso. Isto já está em estudo em universidades europeias.

Quais são as vantagens da madeira engenheirada? Pretende utilizar nas obras da Realiza?

A madeira engenheirada tem muita tecnologia embarcada, com eficiência testada e comprovada há anos. Atualmente recebeu uma nova abordagem, pois as peças agora recebem proteção maior, esbeltez, etc. Vejo como o material dos sonhos, pois é sustentável, renovável e de matriz orgânica natural. Ou seja, perfeito para a sustentabilidade do planeta, uma vez que também garante uma obra seca, bastando a montagem das peças no canteiro de obras. O uso desse tipo de sistema pré-fabricado melhora a qualidade da edificação, porque o acabamento é preciso, visto que no processo de industrialização as peças passam por rigoroso controle de qualidade. Eu sempre digo que a madeira engenheirada é o sistema ideal para o planejamento. Os custos passam a ser previsíveis, isto é, deixamos de ter gastos excessivos, gerados por erros – comuns a obras artesanais tradicionais. Pretendo usar em todos os projetos da Realiza, desde empreendimentos corporativos a residenciais. Inclusive, já estamos com dois projetos sendo compatibilizados com a Amata. Um é de um prédio residencial com oito pavimentos, o outro é comercial.

Como mestre em estética da arquitetura, você considera que os materiais são a base de tudo?

Sem dúvida, eu sempre afirmei isso categoricamente. A arquitetura é estética no sentido de integrar o todo, não somente a casca ou o que vemos como resultado decorativo. Ela envolve os cinco sentidos, e os materiais têm papel fundamental nisso, sobretudo os orgânicos aliados à pré-fabricação.

A pandemia deixou claro o impacto de nossas ações no meio ambiente e na sociedade. Em sua opinião, ela servirá para mudar a forma como nos organizamos em sociedade?

O momento que vivemos é especial. Uma recessão que afeta a economia global, algo nunca vivido nessas proporções […]. Além da mudança de hábitos básicos de higiene, a transformação na forma de se relacionar passou a demandar até um salto quântico […]. Eu prevejo um avanço tecnológico gigantesco na sociedade. Ficou claro para todos que têm passado 24 horas em suas residências as reais necessidades, principalmente de infraestrutura básica. Diante disso passaremos a exigir melhorias, quer seja em nossas residências, quer seja no ambiente de trabalho. Elas envolvem bem-estar e, principalmente, sustentabilidade. Ou seja, o espaço de trabalho inteligente, a casa viva e que funciona perfeitamente passa a ser uma demanda do consumidor. Está aí um desafio para os arquitetos e construtores.

O mercado imobiliário está despertando para essa consciência de tecnologia aliada à sustentabilidade?

O mercado imobiliário é um ser vivo que reage muito sensivelmente a qualquer ameaça. Como ele trata de grandes investimentos, sob qualquer ameaça se retrai. Por outro lado, temos as empresas que se fortalecem na crise, sabe por quê? São inovadoras. Estão superabertas a mudanças, dando origem a novos produtos… Nós mesmos estamos criando prédios para receberem drones delivery. Temos uma empresa chamada N.Fly que atua neste sentido. Aqui no escritório, por exemplo, criamos o planejamento urbano de incentivo aos modais de alta tecnologia e já iniciamos o trabalho com algumas cidades no Brasil, organizando este trânsito dos equipamentos nas cidades.

Será que finalmente chegamos a “Era dos Jetsons” (risos)?

Sim, mais ou menos isso… (risos). Estamos projetando drones que se transportam até gente… Prece surreal, mas é isso mesmo, porque com tantas exigências diárias, as pessoas precisam ter suas vidas resolvidas. Temos um projeto chamado Realiza Casa, em que você compra pela internet a sua residência de 30 a 1000 m2, toda pré-fabricada. Estas casas terão projetos com produtos renováveis e sustentáveis, algumas em estruturas de madeira engenheirada, inclusive. Ou seja, estamos passando do ciclo artesanal para o industrial, com alta qualidade.

 


Crédito de imagem: Realiza Arquitetura

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